A menos de 48 horas da abertura das urnas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) fizeram, na noite de sexta-feira (23), o último confronto direto antes do segundo turno da eleição presidencial. O debate da TV Globo começou com propostas sobre economia, segurança, saúde e educação, mas avançou para ataques pessoais e acusações envolvendo corrupção, milícias, o Banco Master e pessoas próximas aos candidatos.
Realizado no Rio de Janeiro e mediado pelo jornalista César Tralli, o encontro teve quatro blocos. Os presidenciáveis responderam a perguntas sobre temas nacionais e regionais, participaram de rodadas com assuntos definidos por sorteio e tiveram um período de debate livre.
A economia abriu uma das principais frentes de divergência. Lula defendeu os reajustes do salário mínimo acima da inflação e prometeu uma nova etapa do Desenrola para renegociar dívidas. O presidente afirmou que a recuperação da renda, a geração de empregos e a ampliação do crédito continuarão entre as prioridades de seu governo.
Flávio direcionou as críticas ao preço dos alimentos, aos juros elevados e ao endividamento das famílias. O senador propôs transformar a Caixa Econômica Federal em uma das principais responsáveis pela renegociação de débitos e prometeu medidas para facilitar o acesso ao crédito.
Na educação, Lula prometeu ampliar as escolas em tempo integral, universalizar o Pé-de-Meia no ensino médio e criar uma modalidade do programa para estudantes das universidades públicas.
Flávio defendeu a expansão do ensino técnico e a inclusão de conteúdos relacionados à tecnologia e à inteligência artificial nas escolas. O candidato do PL também propôs um auxílio-creche para mães que não conseguirem vagas para os filhos na rede pública.
A discussão ficou mais tensa durante o bloco dedicado à segurança pública. Flávio voltou a defender a redução da maioridade penal para 14 anos, penas mais duras e o agravamento das punições para crimes como roubo e furto de celulares.
Lula prometeu criar o Ministério da Segurança Pública e fortalecer a atuação da Polícia Federal. Segundo o presidente, o combate ao crime organizado exige integração entre o governo federal, os estados e os municípios, além do rastreamento do dinheiro movimentado pelas organizações criminosas.
Um dos momentos mais delicados ocorreu quando Lula questionou Flávio sobre sua atuação na defesa de um policial envolvido no processo que apura a morte de Ana Clara Machado. A menina tinha 5 anos quando foi atingida por um tiro de fuzil, em 2021. A mãe da criança acompanhava o debate na plateia.
Flávio respondeu que atuou como advogado e que todo acusado possui direito à defesa. O senador declarou que desconhecia parte das circunstâncias do caso quando aceitou representar o policial.
O encontro também registrou um ataque relacionado à deficiência física de Lula. Flávio usou a expressão “nove dedos” ao se referir ao presidente, que sofreu a amputação de parte do dedo mínimo da mão esquerda depois de um acidente de trabalho. Diante da reação do adversário, o candidato do PL pediu desculpas.
Na saúde, Lula defendeu o Sistema Único de Saúde e destacou a importância de ampliar consultas, exames, cirurgias e a distribuição de medicamentos. Flávio prometeu reduzir as filas e melhorar a gestão, com maior participação das instituições privadas e filantrópicas no atendimento aos pacientes do SUS.
Os candidatos ainda apresentaram propostas para a infraestrutura. Lula defendeu a continuidade das obras do Programa de Aceleração do Crescimento, novos investimentos em saneamento e a implantação gradual da tarifa zero no transporte público aos fins de semana e feriados.
Flávio prometeu expandir a malha ferroviária, concluir a Ferrovia Transnordestina, ampliar as concessões de rodovias e retirar a cobrança de pedágio para motociclistas.
A parte final foi marcada por acusações relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco Master. Lula questionou possíveis ligações do adversário com o empresário. Flávio respondeu citando investigações que envolvem pessoas próximas ao presidente. As acusações foram negadas e não tiveram comprovação apresentada durante o programa.
Lula procurou associar o senador ao governo de Jair Bolsonaro e criticou a condução da pandemia de Covid-19. Flávio defendeu o legado do pai, mas tentou se apresentar como uma candidatura com propostas próprias para o próximo governo.
Mais de 40 declarações feitas pelos candidatos foram analisadas pela Agência Lupa. A checagem encontrou afirmações verdadeiras, imprecisas, exageradas e falsas durante o debate.
O confronto ocorreu em meio a uma disputa apertada. Pesquisa Ipespe/Abrapel divulgada na sexta-feira mostra Flávio com 50,5% dos votos válidos e Lula com 49,5%. Como a margem de erro é de 2,6 pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados.
No primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Cerca de 2,2 milhões de votos separaram os candidatos.
O segundo turno será realizado neste domingo (25), das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Além da escolha do presidente da República, eleitores de seis estados e do Distrito Federal voltarão às urnas para definir os governadores.