A possibilidade de um El Niño de forte intensidade entre 2026 e 2027 colocou produtores rurais e o mercado de alimentos em alerta. O fenômeno pode alterar o regime de chuvas e elevar as temperaturas em áreas importantes para a produção de soja, milho, café e laranja no Brasil.
As projeções climáticas indicam risco de chuvas acima da média no Sul e de períodos mais quentes e secos em partes do Centro-Oeste e do Sudeste. O impacto, porém, não será igual em todas as regiões e dependerá da intensidade e da duração do fenômeno.
Em Goiás, a preocupação está concentrada principalmente nas lavouras de soja e milho. A irregularidade das chuvas pode prejudicar o plantio, reduzir a umidade do solo e comprometer o desenvolvimento das plantas.
Café pode ter perda de até 20%
A produção brasileira de café está entre as mais expostas ao calor excessivo e à chuva irregular. Representantes do setor calculam que as condições associadas ao El Niño podem provocar perdas entre 15% e 20% em relação ao potencial inicialmente esperado.
A previsão para 2026 apontava uma colheita recorde de 66,7 milhões de sacas de 60 quilos. O risco climático, no entanto, pode comprometer parte desse volume.
Temperaturas elevadas e falta de regularidade nas chuvas prejudicam principalmente a floração e o amadurecimento dos grãos. Acima de determinados níveis de calor, as plantas reduzem o metabolismo, o que pode afetar a produtividade e a qualidade do café.
Produtores que utilizam irrigação e sistemas de resfriamento estão mais preparados para enfrentar períodos secos. Mesmo assim, nem todas as lavouras brasileiras possuem essa estrutura, especialmente em áreas produtoras de café arábica.
Soja e milho exigem atenção no Centro-Oeste
No Centro-Oeste, a distribuição das chuvas será decisiva para a próxima safra de grãos. Longos intervalos sem precipitação podem atrasar o plantio da soja e diminuir a janela disponível para o cultivo do milho segunda safra.
O atraso na semeadura da soja afeta diretamente o calendário do milho. Quanto mais tarde o cereal for plantado, maior será o risco de enfrentar falta de chuva durante a fase de desenvolvimento.
O excesso de precipitação também pode causar problemas. Chuvas frequentes no período de colheita dificultam a entrada de máquinas no campo, aumentam a umidade dos grãos e elevam o risco de perdas.
Café e laranja são sensíveis às ondas de calor, enquanto soja e milho dependem de chuvas regulares em fases específicas do ciclo. Por isso, uma mudança no padrão climático pode atingir cada cultura de maneira diferente.
Alimentos podem ficar mais caros
Uma eventual redução da produção pode elevar os preços agrícolas e atingir o consumidor. O repasse, no entanto, não é automático e depende do tamanho das perdas, dos estoques disponíveis, da demanda e do comportamento do mercado internacional.
O clima também pode aumentar os gastos dos produtores com irrigação, energia, seguro rural e controle de pragas. Parte desses custos pode ser incorporada ao preço final dos alimentos.
Apesar dos riscos, ainda é cedo para definir o tamanho dos prejuízos. As projeções serão atualizadas conforme o El Niño avançar e seus efeitos sobre as diferentes regiões produtoras se tornarem mais claros.