O debate sobre a regulamentação da cannabis no Brasil ganhou força em 2025, impulsionado por um ator que até pouco tempo não se envolvia na pauta: o agronegócio. Lideranças do setor defendem que o país pode transformar uma discussão ainda marcada por estigma em uma oportunidade bilionária para a economia, especialmente com o avanço global do cânhamo industrial e dos derivados medicinais.
Hoje, mesmo sem autorização para cultivo em larga escala, o mercado formal de cannabis no Brasil já movimenta mais de R$1 bilhão por ano, somando produtos medicinais, insumos e tecnologia. Especialistas avaliam que, caso o cultivo seja liberado, o país pode multiplicar esse valor rapidamente, trazendo investimentos e abrindo novas cadeias produtivas.
Potencial agrícola e vantagens competitivas
Estudos apresentados na ExpoCannabis Brasil indicam que o cânhamo, variedade de Cannabis sativa de baixo teor de THC, pode oferecer rentabilidade muito superior a culturas tradicionais. Em plantações voltadas à extração de CBD, a estimativa de retorno chega a R$20 mil por hectare, superando amplamente o que soja, milho ou algodão costumam oferecer.
Além do ganho financeiro, o cânhamo tem características alinhadas às exigências ambientais do agronegócio moderno: baixo consumo hídrico, melhoria do solo em rotação de culturas e potencial para geração de créditos de carbono. Esses fatores têm atraído indústrias que vão do setor têxtil à construção civil, que já acompanham o movimento de regulamentação.
Pesquisa e entraves regulatórios
O avanço mais recente ocorreu com a liberação para que a Embrapa inicie pesquisas sobre a planta, desenvolva um banco de sementes e estude variedades adaptadas ao clima brasileiro. É um passo considerado estratégico para reduzir a dependência internacional e criar base científica para um marco regulatório sólido.
Apesar disso, o setor ainda esbarra em questões técnicas, como a definição dos limites de THC para enquadramento de cultivares e os desafios de controle em regiões tropicais, onde há tendência natural de aumento desse composto. Produtores defendem uma discussão que combine ciência e práticas agrícolas, evitando entraves que inviabilizem a atividade.
Quebra de estigma e agenda econômica
Para representantes do setor, o interesse crescente do agronegócio ajuda a quebrar preconceitos que historicamente travaram o debate. A CEO da ExpoCannabis Brasil, Larissa Uchida, afirma que a mudança cultural é visível e que o Brasil tem capacidade de se tornar um dos maiores produtores de cânhamo do mundo, caso haja segurança jurídica.
Com discussões previstas para avançar em 2026, o governo deve enfrentar pressão tanto de investidores quanto de setores tradicionais da agricultura. A expectativa é de que o tema saia do campo moral e entre definitivamente na agenda econômica, abrindo espaço para uma cadeia produtiva que pode reposicionar o país no mercado global de fibras, medicamentos e bioprodutos.