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El Niño ameaça reduzir margens da safra 2026/2027

Os produtores brasileiros iniciam a safra 2026/2027 sob a ameaça de um El Niño intenso, custos elevados e maior dificuldade para obter financiamento. O cenário divulgado nesta quinta-feira (27) indica margens mais apertadas e menor espaço para absorver eventuais perdas de produtividade.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e altera o regime de chuvas em diferentes regiões. No Brasil, a expectativa é de estiagem mais severa no Matopiba e no Norte, redução das precipitações no Centro-Oeste e no Sudeste e chuvas acima da média na Região Sul.

Os efeitos serão diferentes conforme a localização das lavouras e o período de desenvolvimento de cada cultura. Especialistas calculam que entre 45% e 50% da área plantada com soja poderá ficar sob alguma influência do fenômeno climático.

A soja está entre as culturas que mais preocupam o setor. A produção brasileira deverá alcançar 181,7 milhões de toneladas, crescimento de apenas 0,1% em relação à temporada anterior. Desconsiderando os anos marcados por quebra de safra, poderá ser uma das menores expansões das últimas três décadas.

A margem média estimada para a oleaginosa caiu de níveis próximos a 200% na safra 2021/2022 para cerca de 10% no último ciclo. Para 2026/2027, a projeção é de aproximadamente 8%.

Ao mesmo tempo, o custo de produção aumentou. A estimativa é que o valor necessário para produzir uma saca de soja alcance R$ 105,50, enquanto o preço médio recebido pelo agricultor deverá ficar próximo de R$ 114. A diferença reduz a capacidade de enfrentar perdas provocadas pelo clima ou pelas oscilações do mercado.

O milho também poderá ser afetado por alterações no calendário de chuvas. Um atraso no plantio da soja reduz a janela disponível para a semeadura da segunda safra, aumentando o risco de as lavouras enfrentarem períodos de estiagem durante etapas importantes do desenvolvimento.

No Sul, o excesso de precipitações pode prejudicar culturas como arroz e trigo, além de dificultar o plantio, a colheita e o transporte da produção. No Sudeste, produtores de café e cana-de-açúcar acompanham a possibilidade de chuvas irregulares e temperaturas mais altas.

Outro obstáculo é o crédito. Embora o Plano Safra 2026/2027 tenha disponibilizado R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, produtores relatam maior seletividade das instituições financeiras e custos ainda elevados para contratar financiamentos.

Desse total, R$ 384,9 bilhões foram destinados ao custeio e à comercialização, enquanto R$ 140,2 bilhões ficaram reservados para investimentos. O volume direcionado ao custeio caiu 7,2% em relação à temporada anterior.

O setor também enfrenta aumento nos preços de fertilizantes, seguros, combustíveis, transporte e armazenagem. A combinação entre despesas maiores, crédito restrito e incerteza climática poderá levar os agricultores a reduzir investimentos em tecnologia e limitar a expansão das áreas cultivadas.

Apesar dos riscos, especialistas destacam que o tamanho e a diversidade climática do Brasil reduzem a possibilidade de perdas generalizadas em todo o país. O impacto final dependerá da intensidade do El Niño e do comportamento das chuvas entre outubro e dezembro.

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