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Xi apoia Brasil contra interferência externa, e Lula defende avanço de acordo entre Mercosul e China

O presidente da China, Xi Jinping, declarou apoio ao Brasil na rejeição a interferências externas durante uma conversa telefônica com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta segunda-feira (27).

Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, Xi afirmou que Pequim está disposta a ampliar a coordenação estratégica com o Brasil tanto nas relações bilaterais quanto em fóruns internacionais. A declaração ocorre em um momento de aumento das pressões políticas e comerciais sobre o governo brasileiro.

Após a ligação, Lula informou que os dois presidentes também defenderam o avanço das conversas para um possível acordo comercial entre a China e o Mercosul. Nenhum tratado foi assinado ou concluído durante o telefonema.

De acordo com o presidente brasileiro, uma eventual negociação deverá respeitar as flexibilidades necessárias para os países do bloco. Lula afirmou ainda que o Brasil continuará buscando novos mercados e ampliando sua rede de parceiros comerciais.

Conversa ocorre em meio à pressão dos Estados Unidos

A aproximação com a China acontece poucos dias depois de novas tarifas dos Estados Unidos atingirem produtos brasileiros. Lula criticou as medidas e classificou as cobranças como injustas e prejudiciais às relações entre os dois países.

Em artigo publicado no jornal norte-americano The Washington Post, o presidente afirmou que as tarifas podem elevar custos para consumidores dos Estados Unidos, desorganizar cadeias produtivas e levar empresas brasileiras a buscar compradores em outros mercados.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também classificou as tarifas como uma forma de interferência externa. Segundo ele, 23,1% das exportações brasileiras são atingidas pelas novas medidas, enquanto 16,5% enfrentam tarifas combinadas que podem alcançar 37,5%.

Apesar das críticas, o governo brasileiro afirma que continuará tentando negociar com Washington. Ao mesmo tempo, passou a acelerar ações para diversificar as exportações e reduzir a dependência de mercados específicos.

Na semana passada, o governo anunciou um pacote de R$ 18,5 bilhões em crédito para empresas afetadas pelas tarifas norte-americanas. Os recursos serão destinados principalmente a setores como aço, alumínio e calçados.

Lula e Xi discutem possível acordo comercial

Durante o telefonema, Lula e Xi manifestaram apoio ao avanço das conversas entre China e Mercosul. A discussão ainda está em uma etapa política inicial e não representa a abertura definitiva de uma negociação para um tratado de livre comércio.

O Brasil demonstrou maior abertura ao tema ao longo de 2026. Uma das possibilidades analisadas é um acordo parcial, concentrado em determinados produtos, redução de barreiras tarifárias e facilitação do comércio, em vez de uma abertura ampla e imediata dos mercados.

Qualquer acordo dependerá do entendimento entre os integrantes do Mercosul. Os países do bloco possuem interesses diferentes em relação à China, especialmente nas áreas de agricultura, indústria, tecnologia e compras governamentais.

Lula ressaltou que uma eventual negociação precisará prever flexibilidades. Na prática, isso pode significar prazos diferentes para a redução de tarifas, proteção temporária para setores considerados sensíveis e tratamentos específicos para cada economia.

A lista oficial de acordos comerciais brasileiros ainda não apresenta um tratado entre Mercosul e China em vigor ou formalmente concluído.

Cooperação deve avançar em tecnologia e minerais

Além do comércio, Lula e Xi discutiram a ampliação da cooperação em setores estratégicos e de alta tecnologia.

Entre os temas citados estão inteligência artificial, produção e utilização de satélites, processamento de minerais críticos e comercialização de fertilizantes.

Os minerais críticos são utilizados na fabricação de baterias, equipamentos eletrônicos, painéis solares, veículos elétricos e outras tecnologias ligadas à transição energética. O Brasil possui reservas importantes, mas busca ampliar a capacidade de processamento dentro do próprio país.

A intenção do governo é evitar que esses recursos sejam exportados apenas como matéria-prima e estimular investimentos capazes de gerar produtos industrializados, empregos e desenvolvimento tecnológico.

Na área de fertilizantes, o interesse brasileiro está ligado principalmente à segurança do abastecimento para o agronegócio. O país depende de importações para atender grande parte da demanda utilizada na produção agrícola.

A cooperação em satélites dá continuidade a uma parceria mantida há décadas entre os dois países, enquanto a inteligência artificial passou a ocupar espaço crescente na agenda econômica e tecnológica bilateral.

China tem peso central no comércio brasileiro

A China é o principal destino de produtos brasileiros e possui papel decisivo para setores como soja, minério de ferro, petróleo e carnes. Dados oficiais mostram que o mercado chinês respondeu por 31% de tudo o que o Brasil exportou em 2023 e por 23% das importações brasileiras naquele ano.

Essa concentração representa uma oportunidade para o Brasil, mas também exige cautela. Uma eventual abertura comercial mais ampla pode beneficiar exportadores do agronegócio e da mineração, enquanto segmentos da indústria temem enfrentar maior concorrência de produtos chineses.

Por isso, o governo busca associar a expansão comercial à atração de investimentos produtivos. A estratégia é estimular empresas chinesas a instalar fábricas e centros tecnológicos no Brasil, em vez de limitar a relação à compra e venda de matérias-primas e produtos industrializados.

Xi defende coordenação internacional

Durante a conversa, Xi afirmou que China e Brasil devem ampliar a coordenação em temas internacionais e na defesa dos interesses dos países em desenvolvimento.

Os dois países fazem parte do Brics e defendem maior participação das economias emergentes nas decisões de instituições internacionais. A conversa também abordou a cooperação entre países do chamado Sul Global.

A declaração chinesa de apoio contra interferências externas reforça a aproximação política entre Brasília e Pequim. No entanto, o governo brasileiro afirma que a diversificação de mercados não representa um rompimento com os Estados Unidos ou uma escolha exclusiva pela China.

A posição oficial é manter diálogo com diferentes potências e evitar dependência política ou econômica de um único parceiro.

Os próximos passos dependerão de discussões técnicas entre China, Brasil e os demais integrantes do Mercosul. Até agora, não há prazo definido para o início formal das negociações nem uma lista de produtos que poderia integrar um eventual acordo.

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