Dois meses após a entrada em vigor das novas tarifas alfandegárias impostas pelo governo de Donald Trump — que aplicou uma sobretaxa adicional de 25% (com base na Seção 301) que pode alcançar até 37,5% em itens manufaturados específicos —, empresas brasileiras já registram queda sensível no volume de embarques para o mercado norte-americano. A medida afeta diretamente cerca de 18% da pauta exportadora nacional enviada aos EUA, equivalente a mais de US$ 7,4 bilhões em receitas anuais.
Embora commodities essenciais como café em grão, petróleo bruto e celulose tenham ficado fora da lista de punições do órgão comercial americano (USTR), cadeias de maior valor agregado enfrentam cancelamento de contratos e retração imediata.
Os setores mais atingidos pelo baque tarifário
O impacto é sentido com mais intensidade na indústria de transformação e em segmentos com forte especialização para o consumo dos EUA:
Madeira e revestimentos: Pisos de madeira nativa (como jatobá e cumaru), molduras e placas de rochas ornamentais (granito e quartzo) tiveram freio expressivo. Importadores americanos que não absorveram o custo extra paralisaram encomendas.
Máquinas e componentes elétricos: Equipamentos industriais leves, pás carregadeiras e maquinário agrícola sofreram perda direta de competitividade frente a fornecedores de países com acordos bilaterais isentos.
Calçados, móveis e produtos cerâmicos: Fábricas concentradas nos polos calçadistas e moveleiros do Sul e Sudeste relatam redução de margem operacional e estoques represados.
O desafio de encontrar mercados substitutos
Substituir o maior mercado consumidor do mundo no curto prazo tem se mostrado um gargalo logístico e regulatório complexo para o empresariado nacional:
Poder de compra incomparável: Poucos mercados globais têm capacidade de absorver o mesmo tíquete médio e volume de itens acabados como o varejo norte-americano.
Barreiras fitossanitárias e de certificação: Migrar remessas para a União Europeia exige adequação a exigências ambientais rígidas (como a lei antidesmatamento), processo que leva meses ou anos.
Alternativas na América Latina e Ásia: Países vizinhos do Mercosul e mercados do Sudeste Asiático e Oriente Médio despontam como alternativas para escoamento parcial, mas demandam concessão de descontos e renegociação de preços.
Ações de socorro e crédito emergencial
Para atenuar os prejuízos e evitar demissões em massa nas cadeias afetadas, o governo federal já liberou mais de R$ 18 bilhões em linhas de financiamento pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) por meio do programa Brasil Soberano. Os recursos são voltados para capital de giro, adaptação de processos industriais para novos destinos e fortalecimento do Seguro de Crédito à Exportação (SCE).
Paralelamente, entidades industriais e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) mantêm aberta a possibilidade de acionar instrumentos da Lei de Reciprocidade Econômica caso novas sobretaxas sejam implementadas pela Casa Branca.