Em análise publicada nesta sexta-feira pelo Financial Times, a colunista Gillian Tett afirma que o Brasil ofereceu uma “lição de como vencer” em meio à política tarifária agressiva do governo Donald Trump e destacou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu vencedor da recente disputa comercial envolvendo sobretaxas sobre produtos agrícolas brasileiros.
A avaliação do jornal britânico ocorre após Trump recuar de parte das tarifas impostas quatro meses atrás, quando havia anunciado um acréscimo de 40% sobre importações brasileiras, elevando a carga total para 50%. À época, o republicano reagia irritado ao avanço das investigações judiciais no Brasil contra Jair Bolsonaro, seu aliado, e à postura do governo brasileiro diante das big techs dos EUA.
Segundo o FT, Lula respondeu às pressões “com firmeza”, defendeu o Judiciário brasileiro e manteve posição pública sem ceder às imposições vindas de Washington. Nos últimos dias, um juiz brasileiro decretou a prisão de Bolsonaro, movimento citado pela colunista como parte do contexto político que irritou a Casa Branca.
O recuo de Trump veio na semana passada, quando ele declarou que “certas importações agrícolas do Brasil não deveriam mais estar sujeitas à sobretaxa adicional de 40%”, gesto interpretado pelo jornal como uma vitória explícita do governo brasileiro: “Em outras palavras: Lula venceu”, escreveu Tett.
Pressões internas nos EUA e instinto político de Trump
A publicação aponta que o ambiente interno nos Estados Unidos foi decisivo para a mudança de postura. Pesquisas recentes mostram queda na confiança do consumidor e desgaste na taxa de aprovação do presidente, o que intensifica pressões sobre o custo de vida. Reduzir tarifas agrícolas, observa o jornal, é uma forma rápida de aliviar preços de alimentos.
O FT também destaca que a gestão Trump opera baseada em “melodrama e instinto”, com táticas agressivas, ameaças, intimidação e reviravoltas abruptas, mas que frequentemente recua quando avalia que determinada medida pode se tornar contraproducente. Isso explicaria por que a Casa Branca desistiu das tarifas brasileiras “sem constrangimento”.
Brasil como exemplo de postura firme
A colunista destaca que outros países têm observado que a estratégia de não ceder às investidas de Trump pode funcionar. A Suíça, lembra Tett, recorreu à bajulação; a China, à beligerância; e o Brasil, sob Lula, adotou uma postura firme, ganhando margem para virar o jogo nas negociações.
Para Tett, o episódio envia um sinal ao mundo: “os reis raramente são tão todo-poderosos quanto parecem”. A retirada das tarifas brasileiras, portanto, seria mais um exemplo de que as táticas melodramáticas de Trump não equivalem a objetivos estratégicos sólidos e podem ser revertidas quando confrontadas por resistências bem calculadas.
A análise conclui que, embora Trump frequentemente adote posições imprevisíveis, separar “ruído e essencial” é fundamental e nesse caso, o essencial foi o triunfo diplomático brasileiro em um momento de tensões elevadas entre Washington e Brasília.