Os Estados Unidos suspenderam a campanha de bombardeios contra o Irã após 13 noites consecutivas de ataques. Até esta segunda-feira (27), Washington e Teerã estavam há três dias sem anunciar novas ofensivas diretas, em uma pausa que reduziu temporariamente o risco de uma escalada ainda maior no Oriente Médio.
A interrupção, porém, ainda não representa um cessar-fogo formal. Não há acordo assinado, mecanismo de fiscalização ou prazo estabelecido para a manutenção da trégua. O governo iraniano informou que continuará sem atacar enquanto os Estados Unidos mantiverem a suspensão, mas advertiu que poderá responder caso os bombardeios sejam retomados.
O presidente norte-americano, Donald Trump, interrompeu a operação no fim da sexta-feira (24). O embaixador dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Mike Waltz, afirmou que a decisão busca abrir espaço para os esforços diplomáticos. Segundo ele, Washington pretende dar mais tempo às conversas conduzidas por países mediadores.
Irã nega ter pedido retomada das negociações
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, negou nesta segunda-feira que Teerã tenha solicitado a retomada das negociações de paz com os Estados Unidos.
Baghaei afirmou que as informações de que o governo iraniano estaria buscando um acordo imediato são falsas. Ao mesmo tempo, reconheceu que mensagens continuam sendo transmitidas entre os dois países por meio de intermediários e declarou que o Irã não abandonou a via diplomática.
Não existem negociações diretas entre representantes de Washington e Teerã. Qatar e Paquistão lideram os esforços para aproximar as partes e tentar recuperar o acordo provisório que foi abalado pela nova sequência de ataques. Autoridades regionais ouvidas pela Associated Press afirmaram que houve avanços nas últimas conversas, mas não anunciaram um entendimento definitivo.
Irã e Omã também realizaram reuniões na sexta-feira e no sábado para discutir um possível mecanismo de circulação de embarcações pelo Estreito de Hormuz. A passagem marítima está no centro da disputa e continua operando com fortes restrições.
Pausa ocorreu após 13 noites de bombardeios
A nova campanha norte-americana começou após ataques iranianos contra embarcações que tentavam atravessar o Estreito de Hormuz por uma rota apoiada pelos Estados Unidos.
Durante 13 noites consecutivas, forças norte-americanas bombardearam estruturas militares, pontes, túneis e áreas costeiras do Irã. Teerã respondeu com ataques contra bases dos Estados Unidos instaladas em países vizinhos. Quatro militares norte-americanos morreram durante as retaliações, três deles na Jordânia e um no Iraque.
Uma autoridade dos Estados Unidos afirmou à Reuters que comandantes militares recomendaram a suspensão da campanha após avaliarem que os alvos previamente selecionados estavam se esgotando. Também existia preocupação com o consumo de munições utilizadas para proteger bases e forças norte-americanas de mísseis e drones.
A versão pública do governo Trump é que a operação foi interrompida para permitir o avanço da diplomacia. Até agora, a Casa Branca não anunciou por quanto tempo a suspensão será mantida nem quais condições poderiam levar à retomada dos ataques.
Estreito de Hormuz continua sob restrições
Apesar da pausa nos bombardeios, o Irã afirma que permanece no controle do Estreito de Hormuz e que a situação da passagem marítima não mudou.
Teerã defende que as embarcações utilizem uma rota próxima ao litoral iraniano e submetida às regras estabelecidas pelo país. Os Estados Unidos pressionam pela liberação integral da navegação e apoiam um trajeto mais próximo à costa de Omã.
Meios de comunicação estatais iranianos afirmaram que seis embarcações foram obrigadas a retornar nesta segunda-feira depois de tentarem atravessar a região sem autorização. A alegação não foi confirmada de forma independente.
O tráfego comercial continua muito abaixo do nível registrado antes do conflito. Menos de dez navios de carga atravessaram o estreito por dia durante o fim de semana. No domingo, foram contabilizadas sete embarcações; no sábado, apenas três passaram com os transponders desligados.
Analistas estimam que o fluxo de petróleo e derivados pela região caiu para aproximadamente 15% do volume anterior à guerra. Antes da crise, cerca de 20 milhões de barris de petróleo, condensados e derivados atravessavam a passagem diariamente.
Petróleo cai, mas risco permanece
A suspensão dos ataques provocou uma queda acentuada no preço internacional do petróleo. O barril do Brent recuou cerca de 6,5% nesta segunda-feira e voltou a ser negociado próximo de US$ 90, depois de ter ultrapassado US$ 100 na semana anterior.
O petróleo norte-americano WTI também caiu, com recuo próximo de 5,6%. A reação reflete a expectativa de que a redução da tensão possa facilitar a retomada do transporte pelo Estreito de Hormuz.
Apesar da queda, o mercado continua volátil. Especialistas alertam que a pausa militar não garante a normalização das exportações porque não existe um acordo assinado e o transporte de cargas segue severamente limitado.
Ataques de drones mantêm tensão na região
Mesmo sem novas ofensivas diretas entre Estados Unidos e Irã, ataques de grupos armados continuaram sendo registrados em outros pontos do Oriente Médio.
A Arábia Saudita informou ter interceptado drones lançados contra instalações de petróleo. Rebeldes houthis do Iêmen, aliados de Teerã, afirmaram que atingiram estruturas ligadas ao transporte de petróleo saudita nas cidades de Jizan e Yanbu.
A Jordânia também declarou ter derrubado dois drones, enquanto acampamentos de grupos curdos iranianos no norte do Iraque foram atacados. As autoridades não identificaram oficialmente a origem desses equipamentos e não relataram vítimas.
A movimentação mostra que a crise permanece espalhada pela região. Além do Estreito de Hormuz, o transporte pelo Estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico, também foi reduzido após ameaças e ataques dos houthis contra interesses sauditas.
Trégua segue sem garantias
A manutenção da pausa dependerá do comportamento das duas partes e dos resultados das negociações indiretas. O Irã afirma que seguirá a lógica de “ataque por ataque”: enquanto os Estados Unidos não bombardearem, Teerã também suspenderá suas operações.
Washington tenta obter a liberação do Estreito de Hormuz e retomar discussões sobre o programa nuclear iraniano. Teerã, por sua vez, exige o reconhecimento de sua autoridade sobre a navegação na passagem marítima e rejeita as condições apresentadas pelos Estados Unidos.
Até o momento, a interrupção dos ataques diminuiu a tensão imediata, mas não resolveu os principais pontos do conflito. O risco de retomada dos bombardeios permanece enquanto não houver um acordo formal sobre a navegação, o programa nuclear e as ações militares na região.