O anúncio de sanções conjuntas contra 24 grupos criminosos latino-americanos — incluindo as duas maiores facções do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — colocou no centro do debate geopolítico o “Escudo das Américas”, iniciativa multilateral criada sob a liderança do governo dos Estados Unidos.
A declaração ocorreu após forte discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU, no qual classificou cartéis e organizações criminosas transnacionais como o “Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental”. A medida prevê o congelamento de ativos financeiros, restrições de trânsito internacional e a punição de quem prestar suporte material ou logístico aos grupos listados.
O que é e quem faz parte do ‘Escudo das Américas’
Lançada em março de 2026, a iniciativa é uma coalizão de cooperação militar e de segurança voltada a enfrentar o crime organizado transnacional e a limitar o avanço de influências geopolíticas rivais, como a presença econômica da China na América Latina:
Membros fundadores e alinhados: A aliança reúne governos de centro-direita e direita na região com fortes laços diplomáticos com Washington, tendo como participantes de destaque a Argentina, El Salvador, além de adesões e cooperações recentes como Peru, Chile e Colômbia.
O papel dos Estados Unidos: Washington lidera a inteligência, o intercâmbio de dados e a articulação jurídica para que as sanções aplicadas pelo Departamento do Tesouro norte-americano sejam replicadas pelos tribunais e órgãos fazendários dos países parceiros.
Mecanismos de atuação: Embora parte dos membros utilize dispositivos inspirados no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tratado do Rio), cada país signatário deve operacionalizar os bloqueios e as ações policiais respeitando sua legislação interna.
Por que o Brasil não faz parte e a reação de Brasília
O Brasil optou por não integrar o bloco e não participou das deliberações conjuntas que resultaram na lista de sanções:
Discurso na ONU: Na abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o multilateralismo clássico, a soberania nacional e o princípio de não intervenção, declarando enfaticamente que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Visão sobre as facções: Integrantes da segurança pública e da diplomacia brasileira rebatem a classificação de grupos como o PCC e o CV como “terroristas”. A avaliação técnica das autoridades nacionais é de que se tratam de organizações criminosas voltadas ao lucro, ao narcotráfico e à lavagem de dinheiro, sem aspiração ideológica, política ou religiosa de tomada de poder estatal.
Soberania investigativa: O governo brasileiro sustenta que o combate às facções deve ser coordenado por forças federais e estaduais com cooperação policial internacional formal (via Interpol e acordos bilaterais pré-existentes), sem subordinação a coalizões militares ou diretrizes externas.
Grupos alvos e repercussão
Além de PCC e CV, a lista inclui organizações como o Tren de Aragua (Venezuela), Mara Salvatrucha MS-13 (El Salvador/EUA), os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nueva Generación (CJNG), o Clã do Golfo (Colômbia) e dissidências das FARC. A inclusão das organizações brasileiras visa sufocar suas rotas de exportação de cocaína para a Europa e a África através do bloqueio de contas e empresas de fachada no exterior.