Relatórios de inteligência financeira da Polícia Federal (PF) identificaram transferências que totalizam R$ 1,4 milhão destinadas à Go Up Entertainment, produtora responsável pela cinebiografia “Dark Horse”, que aborda a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O montante envolve repasses diretos realizados pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) e pela empresa NTT Brasil.
Os dados foram anexados ao inquérito que culminou no cumprimento de 49 mandados de busca e apreensão autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A apuração avalia se as transações configuram lavagem de capitais e desvio de emendas parlamentares outrora alocadas para projetos sociais e culturais.
Mapeamento dos repasses e perfil financeiro
A análise contábil realizada pelos peritos da corporação detalha a origem e o cronograma dos valores enviados à produtora:
Transferências diretas de Frias: O deputado federal realizou repasses que somam R$ 645,4 mil para a Go Up Entertainment entre o final de 2025 e o início de 2026. A PF apontou incompatibilidade aparente entre essas quantias e a remuneração mensal líquida do parlamentar na Câmara dos Deputados (em torno de R$ 44 mil).
Aporte da NTT Brasil: A empresa NTT Brasil transferiu R$ 750 mil para a mesma produtora. O fluxo financeiro chamou a atenção dos investigadores pela proximidade temporal com pagamentos recebidos por serviços subcontratados do Instituto Conhecer Brasil (ICB).
Coincidência com gravações: O relatório da PF destaca que as movimentações financeiras coincidiram cronologicamente com as diárias de gravação do longa-metragem em São Paulo, incluindo a quitação de despesas com hotéis de luxo, alimentação e infraestrutura audiovisual.
Triangulação com emendas parlamentares
A linha investigativa principal apura um circuito de repasses dissimulados:
Liberação de emendas: Mario Frias direcionou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares para entidades geridas por Karina Ferreira da Gama — dona da Go Up e dirigente do ICB.
Projetos com execução precária: Auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) constataram irregularidades graves nesses projetos, como um convênio de plataforma de cursos online de R$ 300 mil cujas videoaulas foram publicadas meses após o encerramento formal do termo e somaram menos de dez acessos.
Suspeita de retroalimentação: A polícia apura se recursos públicos carimbados para a área educacional e esportiva foram terceirizados a firmas parceiras para, em seguida, abastecer as contas da produtora cinematográfica e bancar custos de filmagem.
Medidas cautelares e posicionamento da defesa
Restrições judiciais: Por decisão do relator no STF, ministro Flávio Dino, Mario Frias teve o passaporte retido, foi proibido de deixar o país e não pode manter contato com os demais investigados no processo.
Manifestação de Mario Frias: Em petições anteriores encaminhadas ao STF, o deputado negou qualquer desvio de finalidade nas emendas de sua autoria e sustentou a legalidade dos recursos destinados aos projetos culturais e educacionais.
Defesa da produtora: Os advogados de Karina Ferreira da Gama e da Go Up Entertainment afirmam que a produção do filme é um empreendimento privado legítimo e que todos os contratos, prestação de contas e notas fiscais serão devidamente comprovados nos autos.