O governo brasileiro decidiu reduzir o nível de sua representação diplomática na Argentina após novos ataques do presidente Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A mudança foi divulgada nesta quarta-feira (5) e formaliza o agravamento da crise entre os dois países.
Com a decisão, a relação diplomática em Buenos Aires passará a ser conduzida por um encarregado de negócios, profissional de nível inferior ao de embaixador. Julio Bitelli, que representava o Brasil na Argentina, permanecerá em Brasília e não deverá retornar ao posto.
O governo argentino foi comunicado oficialmente por meio do embaixador do país no Brasil, Daniel Raimondi. A medida não representa o rompimento das relações diplomáticas, mas é considerada um gesto de forte peso político e reduz o nível de interlocução entre os governos.
A reação ocorreu depois de Milei voltar a atacar Lula durante uma entrevista à emissora argentina LN+. O presidente argentino chamou o brasileiro de “ex-presidiário”, “ladrão” e “corrupto”.
Bitelli já havia sido convocado para consultas no fim de julho, depois que Milei participou da convenção do PL que confirmou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro. Durante o evento realizado em São Paulo, o argentino criticou Lula, o governo brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Na ocasião, o Itamaraty avaliou as declarações como uma afronta ao presidente da República, ao Poder Judiciário e às instituições brasileiras. Após reuniões em Brasília, o governo optou por não enviar novamente o embaixador a Buenos Aires.
O chanceler argentino, Pablo Quirno, afirmou nesta quarta-feira que a Argentina não adotará uma medida diplomática em resposta. Segundo ele, o governo argentino pretende manter os canais necessários para tratar dos interesses entre os dois países.
Lula e Milei nunca realizaram uma reunião bilateral oficial desde que o argentino tomou posse, em dezembro de 2023. As diferenças políticas e ideológicas entre os dois presidentes têm limitado o contato direto entre os governos.
A deterioração da relação gera preocupação porque Brasil e Argentina são as duas maiores economias da América do Sul e parceiros estratégicos no Mercosul. Os países mantêm uma ampla relação comercial, com impacto direto sobre setores como indústria automobilística, máquinas, energia, alimentos e produtos químicos.
Mesmo com a redução da representação diplomática, consulados e demais serviços destinados aos brasileiros que vivem ou viajam para a Argentina continuam funcionando. As negociações técnicas e comerciais também podem prosseguir, embora a crise torne o diálogo político mais difícil.