O governo brasileiro negou os pedidos de visto de dois integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos que planejavam viajar a Brasília para tratar do sistema eleitoral do país. A informação foi divulgada neste sábado (25) pela Reuters, com base em relatos de duas autoridades brasileiras que acompanham o caso.
Os pedidos foram recusados na sexta-feira (24). A delegação seria formada por Riley M. Barnes, secretário-assistente do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do órgão.
Segundo as autoridades brasileiras ouvidas sob condição de anonimato, a viagem poderia ser usada para levantar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes da votação presidencial de outubro.
O governo brasileiro avaliou a iniciativa como uma tentativa dos Estados Unidos de interferir no processo eleitoral e influenciar a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aliado político do presidente norte-americano Donald Trump.
Departamento de Estado havia confirmado viagem
Antes da negativa dos vistos, o Departamento de Estado confirmou ao jornal The Washington Post que Barnes e Samson planejavam viajar a Brasília na semana seguinte. O órgão, porém, não explicou oficialmente qual seria o objetivo dos encontros nem afirmou publicamente que existiam dúvidas sobre a segurança das eleições brasileiras.
A visita havia sido revelada inicialmente pelo jornal norte-americano e posteriormente confirmada pela Reuters. Após a divulgação da recusa dos vistos, o Departamento de Estado não apresentou resposta imediata ao pedido de posicionamento feito pela agência.
De acordo com as informações publicadas, representantes do governo dos Estados Unidos fizeram sondagens para possíveis reuniões com autoridades do Tribunal Superior Eleitoral. Também foi considerada a possibilidade de um encontro dos emissários com Flávio Bolsonaro.
Até o momento, o governo brasileiro não divulgou uma nota pública detalhando os motivos formais para a negativa dos pedidos de entrada no país.
Governo vê tentativa de influenciar eleição
Autoridades brasileiras afirmaram à Reuters que a iniciativa norte-americana poderia ser utilizada para produzir questionamentos sobre a legitimidade das urnas eletrônicas e do resultado da eleição.
A preocupação é que uma eventual manifestação oficial dos Estados Unidos seja explorada politicamente durante a campanha ou após a divulgação dos resultados.
Lula classificou a movimentação como uma ação política destinada a favorecer Flávio Bolsonaro. O presidente também vem acusando o governo Trump de tentar interferir na eleição brasileira por meio de pressões diplomáticas e econômicas.
A recusa dos vistos representa uma nova escalada na relação entre Brasília e Washington, que já atravessa um período de tensão em razão de divergências políticas, comerciais e judiciais.
Flávio voltou a questionar urnas
A movimentação ocorre depois de Flávio Bolsonaro voltar a levantar dúvidas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas durante a campanha presidencial.
As acusações contra o sistema de votação também marcaram a atuação política do ex-presidente Jair Bolsonaro após a eleição de 2022. Questionamentos sobre fraude foram repetidos sem a apresentação de provas reconhecidas pela Justiça Eleitoral.
Flávio foi oficializado pelo PL como candidato à Presidência neste sábado. Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (24) mostrou Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% do senador.
Em uma eventual disputa direta no segundo turno, Lula aparece com 48% e Flávio registra 43%.
A proximidade da missão com a oficialização da candidatura aumentou a avaliação, dentro do governo brasileiro, de que a visita teria uma finalidade política.
Eleições serão realizadas em outubro
O primeiro turno das eleições brasileiras será realizado em 4 de outubro de 2026. Caso nenhum candidato alcance mais da metade dos votos válidos, o segundo turno ocorrerá no dia 25 do mesmo mês.
Mais de 158 milhões de eleitores estarão aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais.
O Tribunal Superior Eleitoral mantém procedimentos de fiscalização e auditoria das urnas, incluindo acompanhamento por entidades autorizadas, testes de integridade e verificação dos sistemas utilizados na votação.
Em março, o TSE publicou uma resolução atualizando as regras relacionadas à fiscalização e à auditoria do sistema eletrônico para o processo eleitoral de 2026.
Tensão entre Brasil e Estados Unidos
O episódio amplia a disputa política entre Lula e Trump, que passaram a trocar críticas sobre soberania, comércio internacional e a eleição brasileira.
O governo norte-americano tem mantido proximidade com integrantes da família Bolsonaro, enquanto Lula acusa Washington de usar medidas econômicas e diplomáticas para beneficiar seu adversário.
A missão de Barnes e Samson seria uma das ações mais diretas do governo Trump relacionadas ao processo eleitoral brasileiro. Com a negativa dos vistos, os dois funcionários não poderão realizar a visita nos termos inicialmente planejados.
Não há informação, até o momento, sobre um novo pedido de entrada, uma possível substituição dos integrantes da delegação ou a realização de reuniões por videoconferência.