Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo identificou a presença de fentanil na saliva de 32% dos participantes que relataram consumo recente de canabinoides sintéticos, conhecidos como drogas K2 ou K9. Os resultados foram divulgados nesta sexta-feira (23).
A pesquisa analisou amostras de 65 voluntários atendidos por serviços de tratamento e atenção psicossocial na cidade de São Paulo. Todos informaram ter consumido drogas K nos quatro dias anteriores à coleta.
Nenhum dos participantes que apresentou resultado positivo declarou ter usado fentanil intencionalmente. O dado levanta a possibilidade de exposição involuntária ao opioide, embora o estudo não consiga determinar como a substância entrou no organismo dos voluntários.
O fentanil é um opioide sintético utilizado legalmente em procedimentos médicos e no tratamento de dores intensas. A substância possui efeito analgésico dezenas de vezes mais forte que o da morfina.
Fora do ambiente hospitalar e sem controle de dosagem, o fentanil pode provocar redução acentuada da respiração, perda de consciência, overdose e morte. O risco é maior entre pessoas sem tolerância a opioides ou que não sabem que entraram em contato com a substância.
Os participantes que testaram positivo apresentaram maior frequência de náuseas, vômitos recorrentes e dores musculares intensas. A presença do opioide também foi mais comum entre pessoas em situação de rua e com histórico prolongado de consumo de drogas sintéticas.
Os pesquisadores consideram diferentes hipóteses para explicar os resultados. O fentanil pode ter sido misturado às drogas K, estar presente em outras substâncias consumidas pelos participantes ou ter origem em uma exposição não informada durante as entrevistas.
A análise, porém, não permite afirmar que todas as drogas K comercializadas em São Paulo estejam contaminadas. O número de participantes também é limitado e representa um grupo atendido por serviços específicos da capital paulista, não todos os usuários dessas substâncias.
As drogas K são chamadas popularmente de “maconha sintética”, mas apresentam composição e efeitos diferentes dos da cannabis. Elas são produzidas com substâncias químicas que atuam nos mesmos receptores cerebrais e podem provocar confusão mental, agitação, convulsões e alterações cardiovasculares.
O estudo foi conduzido pelo Laboratório de Toxicologia da Faculdade de Medicina da USP, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Os resultados foram publicados na revista científica Drug and Alcohol Review.
Os pesquisadores defendem a criação de um sistema contínuo de vigilância toxicológica e testagem das substâncias que circulam no mercado ilegal. A medida ajudaria a identificar alterações na composição das drogas e a orientar ações de redução de danos.
A equipe também recomenda que a naloxona, medicamento capaz de reverter overdoses provocadas por opioides, seja incluída nos protocolos dos serviços de emergência e do atendimento móvel.
O Brasil registra historicamente índices menores de consumo não médico de opioides do que países como Estados Unidos e Canadá. Os autores alertam, no entanto, que a presença não declarada do fentanil em outras drogas pode aumentar a ocorrência de intoxicações e mortes.