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Cantor Rick foi rara voz negra no topo do sertanejo; entenda o apagamento histórico no ritmo

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A confirmação da morte do cantor Rick, aos 59 anos, após a queda de um helicóptero na serra de Santa Catarina, encerra a trajetória de uma das vozes mais emblemáticas e singulares da música popular brasileira. Ao lado de Renner, o tocantinense Geraldo Antônio de Carvalho vendeu milhões de discos, compôs hinos tocados em todo o país e emplacou dezenas de sucessos nas paradas de rádio ao longo de mais de três décadas de carreira. Mas Rick também ostentava uma marca rara: era um dos pouquíssimos cantores negros a alcançar o primeiro escalão comercial do sertanejo.

A ausência histórica de representatividade no gênero mais consumido e lucrativo do Brasil não é casual. Especialistas e pesquisadores apontam que ela é fruto de um processo estruturado de embranquecimento cultural, barreiras mercadológicas e um sistema estético excludente que invisibiliza as raízes negras da música caipira.

Racismo velado e episódios nos bastidores

Ao longo de sua caminhada até o estrelato, Rick vivenciou na pele os obstáculos impostos pelo preconceito em um circuito majoritariamente branco. Em relatos públicos concedidos ao longo dos anos, o artista relembrou episódios explícitos de discriminação:

 A recusa de uma foto: Em uma das situações relatadas pelo músico, uma fã abordou a dupla nos bastidores de um evento e se recusou a tirar foto ao lado de Rick, admitindo abertamente que “não gostava de negros”. O constrangimento levou Renner a intervir e comprar a briga na hora, recusando-se também a posar para o registro.

 As memórias com João Paulo: Rick compartilhava memórias semelhantes vivenciadas pelo amigo João Paulo (da dupla com Daniel). Em uma delas, um contratante de elite declarou abertamente que não teria fechado o contrato do show se soubesse com antecedência que um dos integrantes da dupla era um homem negro.

O embranquecimento das raízes da música caipira

Segundo sociólogos e pesquisadores da cultura popular, a escassez de artistas negros no sertanejo moderno contrasta frontalmente com a formação histórica do ritmo no interior do Brasil:

 Raízes rurais e afro-brasileiras: A formação do caipira e da própria moda de viola absorveu matrizes do cateretê, do cururu e das congadas, fortemente marcadas por influências rítmicas e melódicas afrodescendentes.

 Modernização e padrão estético: A partir da década de 1930 e com a consolidação da indústria radiofônica, o gênero passou por uma modernização que priorizou uma estética alinhada às elites agrárias do Centro-Sul. Esse movimento embranqueceu gradativamente a imagem pública dos artistas sertanejos.

 A ‘invisibilidade’ do rádio: Casos pioneiros como o de Cascatinha & Inhana, nos anos 1950, estouraram em alcance nacional quando o público consumia música essencialmente pelas transmissões de ondas médias, sem ter contato imediato com o rosto dos intérpretes. Com a massificação da televisão e, posteriormente, da internet e das redes sociais, a barreira visual tornou-se ainda mais implacável.

Rejeição à militância e o mercado fechado

Sociólogos apontam que o ambiente sertanejo contemporâneo desenvolveu uma dinâmica de forte aversão a discursos de conscientização social e racial:

 Cultura avessa ao debate estrutural: Ao contrário de gêneros como o rap, o samba e o funk, onde o combate ao racismo é pauta intrínseca às letras, o agronegócio e o circuito sertanejo operam sobre narrativas de romantismo, festa e celebração da vida no campo, repelindo qualquer posicionamento visto como ativismo ou confronto político.

 O custo para novos talentos: Para um artista negro furar a bolha, a exigência mercadológica de “acerto absoluto” em um megahit é substancialmente maior. Sem investimentos pesados de escritórios dominantes, muitos projetos são descontinuados antes de atingir viabilidade comercial.

Um legado que deixa o topo menos diverso

Com a partida de Rick, o rol de referências negras no topo do sertanejo sofre um desfalque simbólico imenso. A trajetória aberta a duras penas por nomes como Pena Branca & Xavantinho, João Paulo e o próprio Rick segue como inspiração para nomes em ascensão — como Junior Marques, David Henrique e Diogo Henrique —, que continuam enfrentando as engrenagens da indústria para provar que a música sertaneja brasileira também tem raiz e voz negra.

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