Um relatório técnico-pericial elaborado pela Polícia Federal (PF) revelou que integrantes do Banco Master estruturaram uma verdadeira linha de montagem digital para fabricar documentos falsos. O esquema utilizava ferramentas comuns de escritório, como o recurso de mala direta do Microsoft Word, bancos de dados internos e códigos de programação em C# para dar aparência de legalidade a uma carteira fictícia de créditos consignados cedida ao Banco de Brasília (BRB).
A perícia teve como ponto de partida uma apresentação interna de 30 slides, apreendida no setor de tecnologia da informação da instituição financeira e intitulada “Investigações internas – Banco Master”, que registrava procedimentos realizados entre junho e outubro de 2025.
Do banco de dados à mala direta: as etapas da fraude
Os peritos da PF mapearam detalhadamente o passo a passo operacional empregado pelos funcionários do banco:
Captura de dados reais: Em julho de 2025, a equipe de Controles do Back Office solicitou à área de TI o levantamento em massa de CPFs e fichas cadastrais de clientes antigos que haviam contratado produtos legítimos, como o CredCesta (crédito voltado a servidores e pensionistas). Uma consulta SQL gerou planilhas com nomes, CPFs, datas de nascimento e filiações.
Geração de procurações em lote: De posse dos dados reais, a gerência de operações utilizou a ferramenta de mala direta do Word para vincular automaticamente um modelo padrão (PROCURACAO Master.docx) à planilha de clientes. Em um único dia (20 de junho de 2025), o sistema gerou em lote 2.700 procurações falsas na pasta identificada como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.
Extração e ‘colagem’ de assinaturas: Desenvolvedores do banco criaram scripts em linguagem C#, registrados no GitHub da instituição, com a função específica de recortar a segunda página de arquivos PDF — onde ficavam as assinaturas originais de termos de consentimento prévios.
Repositório de assinaturas isoladas: A PF localizou um arquivo compactado (erros-whatsapp.zip) contendo 1.833 PDFs com páginas de assinaturas já destacadas, prontas para serem acopladas aos novos contratos e procurações forjadas.
A finalidade do esquema
De acordo com o inquérito, a manobra visava comprovar lastro documental inexistente para uma carteira de créditos atribuída à Tirreno Consultoria antes do repasse e venda ao BRB. Como a documentação formal não existia ou não atendia aos critérios de conformidade exigidos pelas auditorias, a equipe interna teria recebido a missão de confeccionar o acervo de amostras às pressas.
Mensagens trocadas por integrantes da área técnica durante a montagem das planilhas chegaram a registrar alertas internos de que a base cadastral utilizada estava “meio furada”, com propostas datadas de 2019 sendo reaproveitadas para simular contratos recentes.
Inclusão nos autos
O laudo pericial foi formalmente anexado ao inquérito principal que apura fraudes financeiras, crimes contra o sistema bancário e falsidade ideológica envolvendo a cúpula do Banco Master, servindo como uma das principais provas materiais da falsificação sistemática de ativos.