O Ministério das Relações Exteriores chamou para consultas o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, após as declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A decisão foi confirmada pelo Itamaraty no domingo (26), um dia depois de Milei participar da convenção nacional do PL realizada em São Paulo. O evento oficializou o senador Flávio Bolsonaro como candidato do partido à Presidência da República nas eleições de outubro.
Bitelli foi orientado a retornar a Brasília para discutir o futuro das relações entre os dois países. O chamado de um embaixador para consultas é uma das principais formas utilizadas por um governo para demonstrar insatisfação diplomática.
A medida não representa o rompimento das relações entre Brasil e Argentina, mas sinaliza o agravamento da tensão entre os governos. O Itamaraty não informou por quanto tempo o diplomata permanecerá no Brasil nem se novas providências serão adotadas.
Milei ataca Lula durante convenção do PL
Javier Milei foi um dos principais convidados do evento realizado no Pacaembu. Em seu discurso, o presidente argentino declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e afirmou que o senador seria o nome capaz de derrotar Lula.
Ao criticar o governo brasileiro, Milei chamou Lula de condenado e utilizou outras expressões ofensivas contra o presidente e integrantes da esquerda. Também classificou o governo brasileiro como formado por socialistas ligados a práticas criminosas.
A presença de Milei deu dimensão internacional ao lançamento da candidatura de Flávio. O argentino viajou ao Brasil para participar da convenção e também se reuniu com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
As manifestações foram feitas em território brasileiro durante um evento eleitoral, situação considerada especialmente grave por integrantes do governo. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Brasília interpretou as declarações como uma afronta direta às autoridades brasileiras.
Presidente argentino também ofende Alexandre de Moraes
Milei também atacou o ministro Alexandre de Moraes após ser impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
O presidente argentino utilizou uma expressão ofensiva contra Moraes e criticou a decisão que bloqueou o encontro. A visita não foi autorizada porque Bolsonaro está submetido a restrições judiciais, inclusive para contatos de caráter político e eleitoral.
O presidente do STF, Edson Fachin, reagiu às declarações. Segundo ele, o discurso de Milei representou uma referência desrespeitosa a um integrante da mais alta Corte do país, agravada pelo fato de ter sido feita em território brasileiro.
Decisão foi tomada após consulta a Lula
A convocação de Julio Bitelli foi definida depois de o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversar com Lula na manhã de domingo. O governo decidiu responder por meio dos canais diplomáticos, evitando inicialmente uma manifestação direta do presidente brasileiro.
Além de chamar o próprio embaixador para consultas, o Itamaraty convocou o representante argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para comunicar formalmente o repúdio brasileiro às declarações de Milei.
Mauro Vieira classificou o episódio como uma provocação sem precedente recente nas relações entre os países. O ministro destacou que as ofensas partiram do presidente de uma nação com mais de dois séculos de relações diplomáticas com o Brasil.
Argentina não planeja pedir desculpas
O governo argentino não pretende apresentar um pedido de desculpas pelas declarações de Milei, segundo uma fonte da Presidência ouvida pelo jornal argentino La Nación.
Integrantes do governo argentino avaliam que permanecer em silêncio pode ser a melhor estratégia para tentar reduzir a crise. A intensidade dos ataques feitos durante a viagem ao Brasil teria surpreendido inclusive pessoas próximas à Presidência argentina.
Um dia depois do discurso, Milei voltou a elevar a tensão ao acusar, sem apresentar provas, o governo brasileiro de participar de uma campanha contra a Argentina relacionada à Copa do Mundo.
A crise ganhou destaque nos principais jornais argentinos, que apontaram o episódio como um dos momentos mais delicados da relação entre os dois governos.
Políticos argentinos criticam comportamento de Milei
As declarações também provocaram reações dentro da Argentina. O ex-presidente Alberto Fernández criticou Milei por atacar o chefe de Estado de um país vizinho e importante parceiro comercial.
O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, entrou em contato com Mauro Vieira e afirmou que as declarações não representavam o sentimento de toda a população argentina.
Kicillof também alertou que a escalada pode prejudicar investimentos, exportações, empregos e outros interesses econômicos dos dois países. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina.
Relação entre Lula e Milei já era distante
A relação entre Lula e Milei já enfrentava dificuldades desde a posse do presidente argentino. Os dois mantêm fortes divergências ideológicas e praticamente não possuem diálogo político direto.
Mesmo em suas visitas ao Brasil, Milei não buscou uma reunião oficial com Lula. O presidente brasileiro também não demonstrou interesse em recebê-lo enquanto os ataques pessoais e as divergências públicas permanecessem.
Apesar das diferenças políticas, Brasil e Argentina mantêm uma relação econômica estratégica e integram o Mercosul. A crise amplia as incertezas sobre o diálogo bilateral em áreas como comércio, indústria, energia e articulação regional.
Participação de Milei entra no debate eleitoral
A presença de um presidente estrangeiro na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro também deverá entrar no debate eleitoral brasileiro.
Milei discursou abertamente em apoio ao senador e pediu a derrota de Lula. O evento ainda teve mensagens de apoio do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de Michelle Bolsonaro e uma reprodução digital do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Flávio tenta se apresentar como o principal candidato da oposição e aposta na aproximação com líderes internacionais conservadores. Lula, por outro lado, vem reforçando discursos sobre soberania nacional e rejeição à interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro.
A expectativa agora é saber quanto tempo o embaixador Julio Bitelli permanecerá em Brasília e se o Itamaraty adotará novas medidas diante da recusa do governo argentino em apresentar desculpas.