Pelo sexto dia, Estados Unidos e Israel atacam alvos no Irã, travando uma guerra a partir do ar. Poderá haver tropas em solo em breve? Talvez, mas não americanas.
Grupos curdos iranianos de oposição exilados no norte do Iraque disseram à BBC que têm planos de cruzar a fronteira — planos que existem há décadas —, mas negam categoricamente as alegações de que seus combatentes já tenham feito isso. “Nós estamos nos preparando para isso há 47 anos, desde a era da Revolução Islâmica (no Irã, em 1979)”, disse Hana Yazdanpana, do Partido da Liberdade do Curdistão (PAK), que afirma ter a maior força armada desse grupo. Mas ela insistiu que “nem um único peshmerga se moveu”.
A palavra curda peshmerga significa “aqueles que enfrentam a morte” e é o nome pelo qual são conhecidos os combatentes curdos. Yazdanpana disse à BBC que seis grupos de oposição — que recentemente formaram uma coalizão — estão coordenando ações entre si, tanto no campo político quanto no militar. “Ninguém se move sozinho”, disse.
“Saberemos se nossos irmãos forem avançar.” “Não podemos nos mover se o espaço aéreo acima de nós não estiver limpo”, disse. “E precisamos que os depósitos de armas do regime sejam destruídos. Caso contrário, seria suicídio.
O regime é muito brutal, e a arma mais avançada que temos é um fuzil Kalashnikov”, explicou Yazdanpana. Ela quer que os EUA imponham uma zona de exclusão aérea para proteger os combatentes curdos. “Pedimos isso muitas vezes”, afirmou.
“Fui eu quem enviou os e-mails dizendo ‘precisamos disso com urgência’.” A Casa Branca negou um plano segundo a qual o presidente dos EUA, Donald Trump, estaria considerando armar os curdos — muitos dos quais foram treinados por forças americanas no passado para lutar contra o grupo Estado Islâmico no Iraque. Mas, à medida que aumenta a especulação sobre um possível avanço das forças curdas iranianas, também aumentam os ataques do Irã contra elas. A BBC viu as consequências de ataques contra dois grupos diferentes, incluindo um ataque com míssil balístico que atingiu uma base do PAK, matando um combatente.
Alguns grupos esvaziaram suas bases e deslocaram suas forças na tentativa de protegê-las de ataques das forças militares iranianas. Entrar na guerra contra o regime iraniano seria um risco enorme, e não está claro o que Trump pode estar oferecendo em troca. Os curdos, que formam o quarto maior grupo étnico do Oriente Médio, estão espalhados entre Irã, Iraque, Síria e Turquia.
Eles têm uma longa história de perseguições e traições. Como diz um provérbio curdo: “não temos amigos além das montanhas”. Os EUA podem ser confiáveis para cumprir quaisquer promessas que venham a fazer?
Muitos curdos na Síria — aliados dos EUA na luta contra o grupo Estado Islâmico — ficaram irritados recentemente quando Trump apoiou o governo de transição em Damasco (capital síria) contra eles. “Os EUA e Israel não começaram essa guerra por nossas esperanças, mas sim por seus próprios interesses”, disse Mustafa Mauludi, vice-presidente do Partido Democrata do Curdistão (KDPI) do Irã. “Mas eles estão atacando bases da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, e isso será bom para nós e nos ajudará a entrar.” Vestindo trajes tradicionais curdos, Mauludi relatou uma dolorosa história familiar — um primo morto pelo regime aos 13 anos e outro que está preso há 31 anos sob suspeita de colaborar com a oposição.
Ele disse que 60% de sua família foi presa e sofreu maus-tratos por causa de suas atividades políticas. “Quando eu chegar ao primeiro vilarejo”, disse, “vou dizer em voz alta: ‘Tenho lutado por vocês, vocês são meu povo, e agora lutarei ainda mais.'” Ele acredita que estará lá a tempo de celebrar o festival de Ano Novo curdo, Nowruz (que significa novo dia em persa), em 21 de março. Os curdos representam cerca de 10% da população do Irã, que ao todo tem cerca de 90 milhões de pessoas.
Seus líderes ali pedem que a comunidade internacional apoie Trump, e os apoie também. “Somos o grupo mais organizado politicamente no Irã”, disse Abdullah Mohtadi, secretário-geral do Partido dos Trabalhadores do Curdistão do Irã (Komala). “E não vamos deixar que essa oportunidade [de mudança] seja desperdiçada.” “Estou surpreso que o Reino Unido seja o único país no continente [europeu] que não registrou a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã como organização terrorista”, disse Mohtadi.
Ele também criticou a “hesitação” britânica em permitir que os EUA usem suas bases para atacar o Irã. É difícil avaliar quantos soldados os curdos poderiam mobilizar. “Pode ser vários milhares, incluindo alguns que já estariam dentro da região”, segundo um jornalista local, que também é curdo.
“Eles querem fazer parte da mudança no Irã, para garantir que também façam parte do futuro. Apesar das lições da história, continuam esperançosos.” “Se tivermos a menor esperança de voltar a ver nossa terra natal, isso já nos basta”, disse uma mulher na cidade de Sulaymaniyah, perto da fronteira com o Irã. “Nós o chamamos [Irã] de regime islâmico do carrasco.
Nós os odiamos muito. Eles mataram tantas pessoas.” Tudo isso coloca o Iraque em uma posição difícil, temendo ser arrastado para a guerra ao lado. O governo em Bagdá (capital iraquiana) afirmou que não permitirá que grupos “se infiltrem ou cruzem a fronteira iraniana para realizar atos terroristas a partir do território iraquiano”.
Se as forças curdas cruzarem a fronteira, será um momento agridoce para Yazdanpana, do PAK. “Voltar para a minha terra será muito emocionante”, disse. “Meus tios e meus avós morreram aqui [no norte do Iraque].
Eu não sei como me sentir, feliz ou triste, porque aqueles que realmente mereciam ver este dia já se foram.”